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Vitimismo é uma escolha

Quel feliz de braços abertos em frente ao lagp Caumasse na Suíça

O início dessa reflexão está no texto “Você cria a sua realidade“. Estamos conversando sobre nosso poder de sermos protagonistas das nossas vidas. E sobre a necessidade de um olhar honesto pra dentro para deixarmos de cultivar a posição de vítima – que tanto nos mantém em inércia.

Esse tema inclusive virou um podcast – uma verdadeira AULA – lá no MORADA.

Agora, queria trazer um exemplo prático que me aconteceu e continuar essa conversa tão importante sobre vitimismo e nosso poder de escolher diferente.

Enfrentando desafios

A empresa em que trabalho aqui na Suíça decidiu transferir todo o meu time para Londres. Eu não queria ir, então teria que buscar outro emprego. Me lembro o quanto foi difícil pra mim entrar no mercado de trabalho aqui, em 2021 – e eu não queria ter que passar por isso de novo. Eu estava morrendo de medo de não conseguir. Fiquei triste, chateada, com raiva. Perguntei pra vida “Por quê?” “Por que comigo?” “Tudo estava indo tão bem”.

Ao compartilhar essa situação com amigos, vi, no rosto deles (apesar de terem a melhor das intenções do mundo) um ar de “puxa, Quel, tadinha”. Na hora, isso me despertou um enorme desconforto. Eu não entendi bem o porquê, por alguns segundos, mas depois percebi que eu não gostava mais de ser coitada, que o que eu queria era apoio para olhar pra frente e buscar soluções. Refletindo, eu percebi que a minha narrativa era de tragédia. Percebi que pelo meu tom eu buscava validação do meu sofrimento e da minha impotência – mas eu estava fazendo isso por hábito. Isso não era o que eu buscava de verdade. E o mais incrível foi que esse incômodo deu origem a uma nova narrativa, uma forma diferente de contar essa história. E ela deixou de ser “a vida aprontou comigo de novo”, e se tornou “tenho uma oportunidade de voltar pra minha área de interesse, me ajuda a identificar maneiras de conquistar isso?”

quel feliz
A felicidade de me ver como protagonista e reconhecer meu poder

E foi tão lindo esse processo e tão poderoso pra essa minha jornada profissional, que até quando apareceu uma oferta de emprego em uma área que eu não queria (mas pelo menos era um emprego) eu tive maturidade para refletir e decidir que isso realmente não era o que eu buscava. Que eu queria aproveitar a oportunidade para encontrar algo mais alinhado com meu real interesse e objetivo. E eu não fiquei na inércia. Eu queria algo, então eu precisava me mover. Fiz cursos, procurei oportunidades, pedi indicação, pesquisei bastante, me preparei e finalmente consegui uma vaga exatamente com o que eu queria trabalhar.

Compartilho essa história não porque foi fácil – mas porque foi possível. Foi realmente possível sair da posição de vítima para a posição de protagonista. Foi possível – e libertador – agir.

Reforço que a linha do tempo varia de contexto pra contexto. E realizações e conquistas levam tempo. Mas eu entendi que da mesma forma que aprendemos a terceirizar responsabilidades, também podemos aprender a assumi-las. E que isso realmente possibilita a criação da nossa desejada realizada.

A diferença, claro, está no nível de esforço. É muito mais fácil ficar na inércia, justificar e culpar terceiros, mas é muito mais incrível assumir a responsabilidade e agir. Porque por mais que os frutos demorem a chegar, uma eles realmente chegam. 

Como agir?

Quando enfrentamos traumas, desafios e frustrações, precisamos reconhecer que dói. A gente precisa dar o nome certo para a emoção e validá-la. Acolhê-la.

E aí reflita, com muita humildade, como foi que você se colocou naquela situação (física e/ou emocional) para que a você possa redesenhar suas atuações.

Um exemplo simples: Briguei com meu marido. Ele sabe que preciso acordar cedo amanhã por causa de uma reunião importante e mesmo assim resolveu fazer um jantar na nossa casa, de última hora, com amigos. Fiquei brava, gritei e estou super estressada. Vou dormir mal e ter uma péssima performance na reunião. Meu marido acabou com a minha noite, com meu humor e com minha oportunidade de ter sucesso no trabalho.

Passo 01: Reconheça o que você está sentindo

Sinta o que precisa ser sentido e dê nome às emoções. Pense nas 7 emoções básicas (alegria, tristeza, raiva, aversão, surpresa, medo e desprezo) e identifique aquelas que a situação te faz sentir. Esse exercício nos afasta da posição em que deixamos que as emoções nos controlem, e ao contrário, ele nos dá controle sobre elas.

Nesse exemplo, você provavelmente sentiu raiva, talvez medo de dormir mal e não conseguir performar bem na reunião.

Lembre que é importante não desmerecer sua dor, e que é igualmente importante não apontar responsáveis por ela. Apenas a reconheça, acolha o seu sentimento. Ele é seu.

Passo 02: Eu, protagonista?

Tente se enxergar como origem da situação. E esse é um bom exemplo, porque talvez você tenha falado com todas as letras para o seu marido não fazer nenhum evento nessa noite, mas ele fez mesmo assim – e você não teve nenhum controle sobre isso. Afinal, o outro é livre para agir como ele quer. Mas você pode observar que você também é livre para reagir como quer. E que você é origem da sua reação. Talvez, se você não esperasse agradar tanto os outros, você poderia dizer aos amigos e marido “Infelizmente não posso participar do jantar hoje. Podemos remarcar?” Ou ainda “Foi um mal entendido e seria melhor se vocês jantassem em um restaurante”. Ou ainda “Eu não vou participar do jantar com vocês, preciso dormir. Por favor, não falem tão alto”.

Passo 03: Mudança de estado

Assim, você pode retomar o controle da situação. Você pode sair do estado de raiva para o estado de ação. Você pode mudar a sua realidade para que ela atenda a sua necessidade. E você se livra do stress, do medo – e pode finalmente dormir bem.

Agir vai doer. É desconfortável reconhecer que temos escolhas. É desconfortável encarar nossos monstros de frente e reconhecer falhas pessoais. Mas esse é o processo de crescimento! E ao identificar o que poderia ter sido feito diferente ou o que pode ser feito diferente, você passa a ter o poder para efetivamente agir.

Você sai da inércia de vítima e ganha controle. Você não compartilha sua história com seu marido ou amigos buscando validação da sua tragédia e fortalecendo sua raiva. Você busca a solução do seu problema – sempre disposta a agir para alcançá-lo.

A escolha é sua

Não é fácil colocar em prática esse aprendizado. Leva tempo. Mas como tudo na vida pode ser aprendido, isso também pode! Então sempre reflita: você quer ser vítima ou encarar a postura de protagonista?

Se você é vítima, você deixa de ser agente. O ganho aqui é de não precisar ser responsável pelas transformações que necessitam ser feitas para mudar sua realidade. Se você não é responsável por aquilo que te traz desafios e problemas, você também não é responsável pela resolução.

Mas, pensa comigo, ninguém escolhe ser vítima porque realmente QUER ser vítima. A gente escolhe por causa desse ganho secundário de não precisar se movimentar. É natural do ser humano: a gente tende a buscar ganhos rápidos. Um brigadeiro hoje pelo prazer do paladar imediato contra o prato de salada que me ajuda a alcançar o corpo que eu quero daqui uns meses. Um remédio para emagrecer em 3 dias ao invés de me exercitar.

Li uma vez que o vitimismo é um vício que segue a lógica da frase: “Fuja da dor, busque o prazer”. E pra mim é exatamente isso. Nosso adulto mimado não quer trabalho, só quer recompensa.

Mas a gente precisa reprogramar nosso cérebro para buscar o ganho mais sustentável. O ganho do longo prazo. O ganho é muito maior quando escolhemos ser origem dos nossos problemas. Porque toda vez que a gente faz isso, a gente se coloca como responsável. E, como falei no início, responsabilidade vem acompanhada de poder. E esse poder é o que nos permite, com dedicação e trabalho, transformar situações na nossa vida que não nos agradam.

Se você quer ter esse poder, se você quer transformar a sua realidade, se você quer parar de depender da sorte ou do acaso, eu te convido a olhar pra dentro. Eu te convido a revisitar seus desafios atuais e se colocar como origem. Como responsável. Como protagonista. 

Subindo mais um degrau

Eu espero, com esse texto, que você ganhe consciência de que essa posição de vítima não te ajuda em nada. Espero que na próxima vez que você se vitimizar você sinta, aí dentro de você, um desconforto, um despertar. Espero que você reflita, e retome seu poder.

Eu te convido a parar de se justificar pensando “mas se…”, “é que”, “se pelo menos…”, e focar em “eu quero isso, então farei isso”. 

Lembre que nem a vida, nem ninguém, nos deve nada que nos falta. A gente deve buscar o que quer. Vai dar trabalho mas os frutos serão incríveis. A transformação só acontece quando a gente se coloca como protagonista. 

O que você escolhe daqui pra sempre? Ser vítima ou protagonista?

Pensa nisso com carinho <3 

E não deixe de escutar nosso podcast Vítima ou Protagonista.

Um beijo,

Quel

  • Nataly
    11 de dezembro de 2023

    Perfeito e necessário esse texto. Parabéns meninas
    Muitas das suas palavras eu pensei caramba pensei q só eu fazia isso. Kkk realmente olhar para dentro é doloroso mas importantíssimo para sair do cômodo e partir para a ação. Muito obrigada e continuem com esse projeto incrível ❤️

    • Raquel Furtado
      Nataly
      13 de dezembro de 2023

      Oi Nataly, muito obrigada pela mensagem e carinho <3 E é verdade.. a gente nunca está sozinho, rs!

  • Jacqueline
    11 de dezembro de 2023

    Pra variar, excelente texto é super leve de ler e nos faz repensar as nossas maneiras de encarar às mudanças e desafios. Muito obrigada mais uma vez!

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